Os invernos da mente

Não acredito que todos os assuntos pesados pesem em nossa maneira de abordá-los. A delicadeza é imperativa quando queremos expor detalhes da sordidez que acontece ao redor, talvez até dentro de nós.

Valter Hugo Mãe, em ‘A desumanização’, aporta sua escrita nos pilares suaves da poesia e do lúdico a fim de conseguir retratar ideação suicida, automutilação, hetero-agressividade (violência dirigida a outros), luto, morte e negligência. Ficamos atordoados com a deprimida beleza encaixada nas paisagens gélidas, solitárias e monocromáticas da Islândia. O que é triste e mau consegue ser belo? Se consegue, existe um para quê?

Quero conversar sobre os benefícios dessa obra para a nossa população – adoecida mentalmente, esgotada e em busca de um diagnóstico que não raramente leva década para ser concretizado, quando o é. Dessa forma, não vou me preocupar com spoilers sobre o livro. Digo, haverá partes de enredo descritas aqui que poderão atrapalhar quem não o leu.

Halldora é uma adolescente de 12-13 anos que se vê cristalizada após a morte da irmã gêmea Sigridur. O autor deixa claro que as duas tinham uma relação simbiótica e o luto, como esperado, ultrapassa qualquer entendimento banal – a dor de Halla repousa numa linguagem de sonhos, imagética, resultado da falta de entendimento e de sentido que a ausência traz.

Achei que a minha irmã podia brotar numa árvore de músculos, com ramos de ossos a deitar flores de unhas. Milhares de unhas que talvez seguissem o pouco sol. Talvez crescessem como garras afiadas. Achei que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser ao acaso. Pensei que a morte era feita ao acaso.

Além dos próprios sentimentos, somos sugados, junto à protagonista, para o amargor louco de sua mãe, que se recusa a aceitar a continuidade da vida própria e da família. Uma mulher que atravessa cotidianamente o viés de realidade e que, na atualidade da trama, investe sua energia em machucados contra si e contra o corpo da filha ‘menos-morta’, como é conhecida.

Vingava-se de si mesma por não ter sabido salvar uma filha […]. Devias morrer, dizia ela ao deitar. A tua irmã está sozinha e não te pode vir acompanhar. Mas tu podes. Tu podes chegar à morte com tanta facilidade.

O pai, por outro lado, é negligente, foge para o ofício de pescador na tentativa de adiar o regresso à esposa louca e à filha que é vestígio da irmã. Não acontece apenas uma vez de termos Halldora sozinha em casa, com a mãe escancarando ideações homicidas. Não há para onde escoar a dor da morte.

Apesar de todo cenário de terror, Halla – que também não aceita o prosseguimento de seu destido e também se vê, inicialmente, presa à imagem de Sigridur -, tem um corpo que vive e reage à vida. É no encontro com o erótico que a protagonista inicia o processo de ressignificação da sua existência. Einar, o rapaz abobado da vila, também traumatizado, ama aquele corpo magro, pálido e mutilado e se entrega ao seu sentimento – tão grande, que extrapola os dois e põe, na menina, um filho posteriormente perdido.

Para mim, Halldora é um golpe de saúde no meio de toda aquela podridão, mesmo que, no início, ela se recuse a ser. Com o amor de Einar e com a poesia do pai (ou seja, através das palavras e seus vários significados), ela consegue atribuir a si a força necessária para ser um indivíduo, agora desvinculado da ideia de família (que, para ela, não pode incluir a doença da mãe, a falta do pai, os olhares preconceituosos da vila etc).

É esse gancho que gostaria de puxar para iniciar a discussão médica de hoje: a saúde que em Halla resiste, na sua mãe já está invernada. E o que, patologicamente falando, inverna a alma?

Obs.: eu acredito que o possível quadro da mãe seja um tipo específico de depressão que vou comentar mais ao final.

Os transtornos (alteração de saúde que compromete pelo menos um dos aspectos da vida do paciente – pessoal, profissional, familiar) depressivos estão entre os mais comuns e incapacitantes problemas de saúde mental. Afetam aproximadamente 20% da população em algum momento da vida e, desses afetados, 10-15% cursam com suicídio. É bastante comum e, por isso, ainda mais grave.

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Mulheres em idade fértil têm 2 a 3 vezes mais chance de adoecer (por distinções hormonais, estressores psicossociais, parto). Em idosos, a incidência de depressão em ambos os gêneros é semelhante.

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Além da alta prevalência, a morbidade das depressões se expressa pela recorrência (surgimento de novos episódios), cronicidade (não há cura; outras doenças como diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica também são crônicas), persistência e incapacitação.

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A depressão caracteriza-se por humor deprimido, anedonia (ausência de prazer em atividades previamente prazerosas), queda da energia, lentidão, negativismo em sentimentos e pensamentos, além de sintomas físicos e insônia.

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Há baixa auto-estima, culpa, desesperança, tristeza, apatia, solidão, ansiedade, tédio, vazio etc. As energias mental e física estão diminuídas (normalmente); relata-se cansaço, preguiça, sono. Tarefas cotidianas exigem esforço.

O paciente distorce a realidade do passado, do presente e do futuro para o polo negativo, supervalorizando eventos ruins e ignorando bons.

Esse é o quadro esperado da depressão maior (DSM-IV), porém existem outras. É importante ressaltar, por exemplo, que, em jovens, é comum ocorrer agitação durante a depressão, isto é, depressão com intenso desespero, excesso de pensamentos, excesso de sofrimentos, inquietação constante e alta impulsividade – segundo Dr.Diego Tavares HCUSP.

Para a personagem ‘mãe’ de ‘A desumanização’ outro tipo de depressão é relevante. Chama-se depressão psicótica. Além das características previamente citadas, apresenta delírios congruentes com o humor deprimido – por exemplo, o delírio de culpa que a mãe de Halla apresenta em relação à morte de Sigridur -, de punição merecida – acredito que explicitado pelos cortes em seu corpo e nos da filha, uma vez que é culposo, para ela, estar vivo depois da morte da Sigridur.

Na depressão com psicose, as pessoas podem interpretar os eventos triviais do cotidiano como evidência de defeitos pessoais, ao tempo em que se culpam de forma indevida e francamente inapropriada. Mais comumente, o paciente recua no tempo, com a finalidade de se acusar por supostos delitos ou atos culposos do passado, remoendo escrúpulos indevidos.

As alucinações que acompanham os estados depressivos, quando presentes, são em geral transitórias e não elaboradas. Costumam ser, mais comumente, coerentes com o humor depressivo: vozes que condenam o paciente, imprecações do demônio, choro de defuntos, etc.

O mais importante é frisar que, agora vendo quão amplo é apenas um dos transtornos de humor, a busca de ajuda especializada (com seu clínico geral, médico de família ou psiquiatra) é vital para o diagnóstico acurado e o tratamento eficaz.

Caso conheça alguém com mudanças repentinas de humor, alteração do padrão comportamental, das vestimentas para cobrir partes mais comumente machucadas (braços, coxas), absenteísmo recente na escola ou trabalho, ofereça suporte emocional.

Deixo, abaixo, alguns links para auxiliar:

http://www.abrata.org.br/new/arquivosfolder/OS%202017%20-%20Manual%20Paciente%20Abrata%201%20-%2010-08-11.pdf – panfleto sobre depressão

Durante a crise depressiva, devem-se evitar críticas e cobranças: as críticas apenas confirmam os pensamentos de falta de valor e de inutilidade que os portadores já têm; e as cobranças aumentam o estresse do portador, pois ele já não tem condições de realizar suas tarefas (já se cobra e não consegue), e a situação só piora quando ele sente a cobrança vinda dos familiares. Para estimular o portador, deve-se convidá-lo para atividades diversas, prazeirosas, porém sem cobrança excessiva, pois acaba se tornando “mais uma cobrança” – mas não se deve deixar de convidá-lo para atividades, pois se sentirá, ao menos, amparado. Palavras de conforto e que estimulam a paciência são fundamentais, mesmo que sejam repetitivas, pois a principal mensagem é emocional, e não racional.

http://www.abrata.org.br/new/arquivosfolder/cartilhadireitossaudemental.pdf – Direitos do paciente com alguma patologia mental

https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/05/falando_abertamente_sobre_suicidio.pdf – informativo sobre suicídio. Recomendo fortemente.

Gostaria de contribuir, um pouquinho, com o texto de hoje.

Se houver alguma dúvida, me procurem

Meu email: jmoreira.dra@gmail.com

Um grande até breve,

Jéssica

Dicas:

Leitura: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39510846 ;

Filmes: Song of the sea

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCPSF_i4TthY5-7XMnLjh2jQ/featuredo canal psiquiatria e neurologia apresenta uma playlist com bordagens muito relevantes para o assunto de hoje. Destaco:

  • Como ajudar alguém com depressão;
  • existe depressão sem tristeza;
  • Qual a diferença entre Alucinação, Ilusão e Delírio?

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Aô, trem bom! (continuação)

No último encontro, conversamos sobre a importância do ambiente para construção da obra de Guimarães Rosa. Também estendemos, aos dias atuais, a relevância vital do cerrado para o Brasil e o que sua destruição já reverbera de (muito) prejudicial.

Hoje, gostaria de selecionar o conto Sarapalha para a discussão, uma vez que, nele, Guimarães nos entrega a pauta: Malária!

A malária é uma doença infecciosa aguda, causada por protozoário do gênero Plasmodium e transmitida ao homem pela picada de fêmeas do mosquito de gênero Anopheles.

Essa doença também é conhecida como paludismo, febre palustre, impaludismo, maleita ou sezão.

Ela veio de longe, do São Francisco. Um dia, tomou caminho, entrou na boca aberta do Pará, e pegou a subir. Cada ano avançava um punhado de léguas, mais perto, mais perto, pertinho, fazendo medo no povo, porque era sezão da brava – da “tremedeira que não desamontava” – matando muita gente   

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Na Amazônia Legal brasileira, o risco de transmissão é alto: 300.000 casos/ano em 2009 – maioria causado pelo Plasmodium vivax (que apresenta raras probabilidades de óbito).

Tudo bem, mas o que encontraremos ao conversar com quem contraiu malária?

A fase inicial ocorre em ataques paroxísticos (repentinos, em picos) de calafrio, sudorese, palidez e cianose labial (lábios azulados). Duram de 15 minutos a 1 hora e são seguidos por febre alta, cefaleia e mialgia intensas.

A pessoa pode, ainda, apresentar frequência cardíaca aumentada (taquicardia) e, mais raramente, ter-se com a pele amarelada – o que chamamos icterícia.

“-Ei, primo, aí vem ela…

-Danada!…

-Olh’ele aí…o friozinho nas costas…

E quando Primo Ribeiro bate com as mãos nos bolsos, é porque vai tomar uma pitada de pó. E quando Primo Argemiro estende a mão, é pedindo o cornimboque. E quando qualquer dos dois apoia a mão no cocho, é porque está sentindo falta-de-ar”

Tão importante quanto os sintomas, é entender as medidas de prevenção, caso resida ou viaje para áreas com alta probabilidade de contrair malária:

  • O mosquito apresenta hábitos noturnos, portanto evitar locais de risco ao entardecer e logo que amanheça.
  • Usar repelentes e telas nas portas e janelas.

 

  • (algumas medidas coletivas – tomadas por órgãos de poder público) combate ao vetor adulto através da borrifação de inseticida de ação residual nas paredes das casas; saneamento básico para evitar a formação de criadouros surgidos a partir das águas pluviais e das modificações ambientais causadas pelo homem;

 

  • Medidas educativas para informar a população e proporcionar mudança de hábitos. Por exemplo, orientar sinais e sintomas, assim abreviando o tempo entre o início da doença e o atendimento médico.

O mosquito fêmea não ferroa de-dia; está dormindo, com a tromba repleta de maldades; somente as larvas, à flor do charco, comem-se umas às outras, brincando com as dáfnias e com as baratas-d’água […]

Bom, é isso que gostaria de expor. Espero que contribua de alguma maneira.

Um grande até breve,

Jéssica

Dicas:

  • Leitura: Sagarana, João Guimarães Rosa
  • Youtube: Como erradicar um dos nossos inimigos mais letais- Gene drive e malária – Kurzgesagt

Aô, trem bom! As novelas de Sagarana.

 Às vezes, penso ser uma pena fazer de João Guimarães Rosa e seus neologismos uma obrigação escolar, o suplício dos vestibulandos (jovens demais). Mas de que outra forma sua obra chegaria a tantas mãos? Em nossa sociedade – brasileira-, carente de leitores, algum dia teríamos a coragem honrada de vasculhar as linhas desérticas do autor mineiro sem um mínimo empurrãozinho prévio?

   A entrada de Guimarães na minha vida, no colégio, foi traumática. Ler Sagarana como compromisso resultou em não o ler. Malmente, ocupei meu tempo (já dividido entre cálculos que nunca mais usaria, fórmulas químicas dispensáveis etc) com o último conto da coletânea (gigante aos olhos de adolescente): li-o às pressas, de qualquer maneira e com raiva. 

   Talvez a minha resposta às perguntas iniciais residissem aí, nesse segundo parágrafo, germinado aos 16 ou 17 anos de vida: inútil introduzir autores áridos em jovens idades – nunca diria idades precoces, prematuras, pois acredito que entrar em contato com algo que não compreendemos significa resignar-se, curvar-se para a constante labuta que é aprender. Pronto, respondido: Guimarães dificultoso, criador de palavras melodiosas, pastor de símbolos e de herois às avessas, pobres, tomados por dúvidas e fé ressoou em minha teimosa cabeça por anos até o inevitável. Na faculdade, li Grande sertão veredas e primeiras estórias. Depois de formada, “reli” Sagarana. 

   Guimarães deixou-me encantada para sempre!

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  • Guimarães recriou (diferente de tentar retratar), na literatura, a fala do sertanejo tanto no vocabulário como na sintaxe (construção das frases – como podemos ver na imagem acima) e na melodia.
  • À sua obra podemos atribuir o termo “regionalismo universalista”, pois os questionamentos presentes (o bem e o mal, Deus e o diabo, o amor, a violência, a morte, a traição, o sentido da vida) ultrapassam os limites do sertão mineiro, concernem ao homem.

   Sei que a proposta do blog é tratar de medicina e literatura, pois encaro como indispensáveis para a autonomia, para a expansão dos limites de realidade e para atribuição de propósitos, porém outras áreas do conhecimento serão necessárias aqui. Dessa maneira, achei mais proveitoso dividir essa conversa em duas postagens. 

Hoje, vamos falar sobre a relevância geográfica “dos gerais” para a obra Sagarana. Em suas nove novelas, o cerrado é personagem onipresente. Ele atua como anunciador de acontecimentos decisivos – tragédias-, construtor da figura do sertanejo e seu cotidiano de travessia, marcador da passagem do tempo, fuga do presente para uma nova realidade, metáfora etc.

“E assim continuaram, traçando por todos os lados linhas apressadas, num raio de dez léguas, na mesopotâmia que vai do vale do Rio das Velhas – lento, vago, mudável, saudoso, sempre nascente, ora estreito, ora largo, de água vermelha, com bancos de areia, com ilhas frondosas de mato, rio quase humano, – até ao Paraopeba – amplo, harmônico, impassível, seivoso, sem barrancas, sem rebordos, com praias luminosas de malacacheta e águas profundas que nunca dão vau”

Para nós, atualmente, a relevância do Cerrado extrapola a ficção e espaço físico dos 9 estados (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais, São Paulo) e o Distrito Federal. Vamos aos fatos:

O cerrado é o segundo mais extenso bioma brasileiro e tem como núcleo planaltos e chapadões submetidos ao clima tropical no centro do país.

Esse bioma nada mais é do que uma savana tropical, ou seja, formação na qual o estrato de árvores e arbustos coexiste com o da vegetação rasteira (essencialmente gramíneas). A flora é tipicamente brasileira, bastante distinta das savanas africanas.

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(Não ficou muito boa a foto: tentativa de desenho dos Angico, Aroeira, Mulungu e Araticum)

Uma das peculiaridades desse bioma são as queimadas naturais frequentes, que selecionam espécies resistentes. As cinzas resultantes desse processo fornecem minerais. O fogo participa da reciclagem dos nutrientes.

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A valorização econômica do domínio do cerrado intensificou-se a partir das décadas de 50 e 60, com a construção de Brasília e a abertura de rodovias de integração nacional. Podemos acrescentar, ainda, a expansão da fronteira agrícola a partir da correção dos solos com calcário, permitindo pastagens e culturas de soja, algodão e grãos.

Com a ação antrópica acompanhada de tecnologias, tivemos (e continuamos tendo) intensificação dos processos erosivos. A retirada da vegetação nativa aumenta o impacto das enxurradas sobre os solos, enquanto a mecanização os torna mais compactos, fazendo declinar a taxa de infiltração aquática.

Ah, a irrigação descontrolada e o uso desmedido de pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos comprometem os recursos hídricos.

Para uma abordagem mais ampla e atual a respeito do cerrado e os impactos de sua destruição: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39391161

“Formado em antropologia pela Universidade Católica do Chile, doutor em arqueologia pré-histórica pelo Museu de História Natural de Washington e professor aposentado da PUC-Goiás, Barbosa conta que a água que alimenta o São Francisco e as represas de São Paulo e Brasília vem de três grandes depósitos subterrâneos no Cerrado: os aquíferos Guarani, Urucuia e Bambuí.”

Acredito, mais do que nunca, que a literatura nos torna seres de alma tentacular, sempre expandindo os limites da realidade. Guimarães Rosa a obra que foi fruto de suas andanças pelo Cerrado deu-me impulso para conhecer mais a respeito do meu país, da devastação irrecuperável que causamos em um bioma ancião e vital para todas as regiões. Agora, tenho a oportunidade de fazer chegar, esse conhecimento, a outros olhos.

A literatura retira de nós a alienação construída dia a dia pelo cotidiano.

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Um grande até breve,

(CONTINUA)

 

Os heróis (da terceira idade)

Recentemente, coloquei na cabeça: queria um livro com protagonista velho (velho de verdade, diplomado, experiente no assunto).

Deixei meu marido com seus cabelos curtos em pé até colocar as mãos no “a máquina de fazer espanhois” de Valter Hugo Mãe – escritor português de 40 e poucos anos e que, corajoso, provocou-nos um vislumbre da etapa derradeira antes da morte.

Usarei o enredo como pretexto para conversarmos sobre Delirium. Antes, porém, é importante destacar alguns pontos fortes da narrativa:

  • Uma crítica sutil e acertada a respeito da infantilização do idoso (e da sua assexualidade presumida)
  • A morte – inexorável- e os tabus que a cercam
  • O regime fascista de Portugal ( Salazarismo – 1933 a 1974)

O envelhecimento, ou seja, o processo natural e inevitável, contínuo, que se inicia na fase adulta e persiste até o falecimento, torna-nos frágeis e dependentes. Por mais qualidade de vida e promoção da saúde que venhamos a ter, as capacidades orgânica (do corpo humano e seus órgãos) e funcional (andar, falar, pensar, lembrar) estarão sendo, gradualmente, retiradas de nós. O maior aprendizado será, na verdade, reaprender a precisar dos outros, a abrir mão de liberdades antes banais: impossível experimentar aventura maior!

Aí entra o Senhor Silva, 84 anos, protagonista e viúvo. Estará acompanhado da mais formosa gangue da terceira idade de um asilo fictício em Portugal (engana-se o leitor que imaginar jogos enfadonhos de cartas e conversas repetitivas, pois eles partem pra ação).

Destaco, do grupo, Esteves: homem centenário que, em determinado momento se verá experimentando sensações e acreditando em verdades absurdas.

“esteves, o que se passa consigo, homem. ele encostou a porta e veio junto a mim, sentou-se na beira da cama. estava cansado, quase chorando. não consigo dormir ali. o homem geme mais do que nunca e eu estou a ter visões. fico a achar que existem máquinas que nos tiram a metafísica, senhor silva” p151

Respeitando a liberdade poética de um senhor que alucina com máquinas que lhe tirem a metafísica, leiamos os fatos.

Delirium é uma alteração cognitiva grave definida por início agudo, curso flutuante, distúrbios de consciência, memória, orientação, pensamento, percepção e comportamento. É considerada emergência geriátrica.

Trocando em miúdos, nada mais é do que perder a noção aceita de realidade e ter os sentidos alterados (vemos, ouvimos, cheiramos o inexistente) . E esse quadro oscila, então podemos encontrar o idoso lúcido e, instantes depois, apresentando-se confuso: o nosso amigo esteves, inclusive, quando procura o senhor silva, está certo de que o que viu não existe.

A epidemiologia nos diz que a incidência de delirium na população idosa varia de 14% a 24% (dados de um artigo da USP Ribeirão Preto de 2010). Em se tratando de idosos em hospitais, é a segunda síndrome neuropsiquiátrica mais frequente (perde apenas para depressão).

Com dados tão expressivos, é importante a gente ter em mente os fatores de risco para o aparecimento do delirium: a idade (quanto mais idoso, maior a prevalência), gênero masculino, déficit visual (alô, catarata), demência, depressão, imobilidade, desidratação (também a desnutrição), alcoolismo, dentre outros. Pelo que já foi citado previamente, esteves tinha dois, incluindo o mais importante – a idade.

Gostaria de destacar, entretanto, o uso de fármacos como fator precipitante, ou seja, que desencadeia o quadro. Isso ocorre porque existe uma relação entre o número de medicamentos utilizados e a incidência do delirium, há uma maior chance de efeitos colaterais e interações medicamentosas.

  • Sabemos que a população mais envelhecida implica aumento das doenças crônicas e sem cura (hipertensão, diabetes, problemas no coração), portanto aumento da prescrição de remédios
  • O Brasil será a sexta maior população de idosos em 2020!

  • Nunca pare a medicação por conta própria ou oriente alguém a fazer o mesmo. Isso pode contribuir com o avanço acelerado de doenças graves e fatais (sem contar que alguns remédios são controlados, levam tempo para fazer efeito e, se retirados abruptamente, terão sintomas da interrupção).
  • Peça ao seu médico que otimize as medicações. Tire dúvidas.

Ok, ok. Mas o que podemos encontrar em um idoso num quadro de delirium? Déficit de atenção (dificuldade em focar e manter atenção), incluindo problemas em manter diálogos ou seguir comandos; desorganização do pensamento que é caracterizada por discurso incoerente, além de agitação ou lentificação do corpo, alucinações, delírios, agressividade, ansiedade e mudanças no padrão de sono.

Se o idoso apresentar mudança de comportamento usual , é fundamental a presença de familiares ou conhecidos por perto e a ligação para um serviço de emergência, uma vez que quadros graves como infecção pelo corpo todo (sepse) ou infarto do coração podem desencadear delirium. Também pode ser necessária sedação.

  • Samu: 192

Remover objetos perigosos próximos, fornecer suporte à orientação (relógios, fotos de entes queridos, calendários), manter o ambiente calmo, silencioso e adequadamente iluminado durante o dia podem ser a diferença durante o quadro de delirium.

Nunca medicar paciente por conta própria! O organismo do idoso, como sabemos, é diferente e exige doses individualizadas. Alguns remédios que temos em casa podem piorar o quadro. Não coloque a vida de alguém em risco.

É isso por hoje, então. Espero que possamos aprender muito, muito mais 🙂 Espero poder ajudar de alguma forma.

Um grande até breve 😊

  • Dica de leitura: a máquina de fazer espanhois – Valter Hugo Mãe
  • Dica de filme: Up! Altas aventuras
  • Referências: Tratado de Clínica médica – Antonio Carlos Lopes; Medicina de Família e Comunidade; Compêndio de clínica psiquiátrica